Zeus e Hades: a briga de irmãos que os jogos adoram contar
Um ficou com o céu, o outro com o subsolo. Da tragédia de God of War à diplomacia de jantar da Supergiant, essa partilha rende conflito há duas décadas.

No mito, depois de derrotar os titãs, três irmãos dividiram o mundo. Zeus ficou com o céu, Poseidon com o mar e Hades com o mundo dos mortos. A terra e o Olimpo seriam de todos. Os textos antigos não registram queixa formal de Hades, mas basta olhar a divisão para entender por que a ficção moderna imaginou uma. Os videogames, em especial, voltam a essa ferida sempre que podem.
A versão do desenho: o irmão invejoso
A leitura mais popular vem da animação da Disney de 1997 e chegou aos jogos com a série Kingdom Hearts. Nela, Hades é um vilão falante e irritadiço que trama para tomar o lugar do irmão, e Zeus é o pai bonachão que nem percebe o perigo. Em Kingdom Hearts III, o plano envolve soltar os titãs sobre o Olimpo.
É uma versão sem ambiguidade. Zeus tem razão porque é simpático, Hades está errado porque é ressentido. Funciona para o público infantil e fixou uma imagem que quase todo jogo posterior precisou confirmar ou desmontar.
A versão trágica: irmãos como instrumentos
God of War III desmonta. Ali, Hades é um carcereiro amargo, e a amargura tem motivo. Ele perdeu a esposa, perdeu um irmão para as lâminas de Kratos e continua obedecendo a um rei que o trata como subordinado. Quando enfrenta o protagonista, fala de vingança pela família. Zeus, por sua vez, não desce para ajudar. Usa os irmãos como linhas de defesa e assiste do alto.
O jogo não tem muito interesse em reconciliar ninguém. A relação entre os dois é mais um sintoma do problema central da trilogia: um governo sustentado pelo medo, em que todo parente é uma ameaça ou um escudo.
A versão doméstica: o silêncio de anos
O Hades da Supergiant escolhe outro registro. O senhor do submundo é um administrador sobrecarregado que cortou relações com a família de cima. Não responde mensagens, não aceita visitas e proíbe o assunto dentro de casa. Zeus trata isso com leveza, faz piada sobre o mau humor do irmão e manda ajuda ao sobrinho sem pedir licença, o que do ponto de vista de Hades é uma ofensa enorme.
O que torna essa versão interessante é que os dois têm razão em parte. Zeus é mesmo condescendente e nunca se perguntou como é governar o pior dos três reinos. Hades é mesmo rígido e esconde da família um fato que mudaria tudo. O jogo resolve o impasse com uma solução diplomática e deixa claro que ela é provisória.
A versão de guerra: o irmão ausente
Em Hades II, a situação se inverte. Hades está preso, e é Zeus quem precisa defender uma casa sitiada. A rivalidade vira falta. Nas falas com Melinoë, o rei do Olimpo menciona o irmão com uma mistura de preocupação e incômodo, como quem descobre tarde o tamanho do trabalho que o outro fazia.
A versão tática: três opções na mesma tela
Vale lembrar Age of Mythology, que coloca os três irmãos lado a lado como escolhas equivalentes. Ali não há drama. Zeus favorece a infantaria e o favor divino, Hades favorece arqueiros e construções. A partilha do mundo vira balanceamento. De certa forma, é a adaptação mais fiel ao mito, em que a divisão é apresentada como um arranjo e não como uma injustiça.
Por que a história não cansa
Porque é uma briga de herança, e todo mundo entende briga de herança. Um irmão ficou com a parte visível, a que recebe elogio. O outro ficou com o serviço que ninguém quer e do qual todos dependem. Os jogos mudam quem está com a razão conforme a época. Nos anos 2000, o público queria derrubar reis, e Zeus era o tirano. Nos anos 2020, a simpatia migrou para quem trabalha no subsolo. O mito comporta as duas leituras, e é provável que a próxima década invente uma terceira.


