De tirano a piada: vinte e cinco anos de Zeus nos videogames
O rei do Olimpo já foi estátua, patrono, vilão, kit de habilidades, tio e narrador. A ordem em que isso aconteceu diz muito sobre como os jogos aprenderam a escrever.

Zeus é um personagem difícil de adaptar. Nos mitos ele é, ao mesmo tempo, o garantidor da justiça e o sujeito que mais a desrespeita. Protege hóspedes e suplicantes, e sequestra quem lhe interessa. Os videogames resolveram essa contradição do jeito que resolvem quase tudo, escolhendo um lado por vez. Quando se colocam essas escolhas em ordem cronológica, aparecem cinco fases bem definidas.
1. O deus do tabuleiro (2000 a 2002)
Em Zeus: Master of Olympus, de 2000, o jogador administra uma cidade grega. Zeus é um dos deuses que podem receber um santuário, e quando o templo fica pronto ele passa a caminhar pelas ruas, abençoando oficinas e afastando invasores. É uma figura de desenho animado, de barba branca e passos largos. O jogo o trata como uma instituição da cidade, alguém a quem se paga tributo em troca de proteção.
Age of Mythology, dois anos depois, faz algo parecido num jogo de estratégia. Zeus é um dos deuses maiores dos gregos, e escolhê-lo define vantagens de economia, de infantaria e um poder divino, o raio que elimina uma unidade inimiga do mapa. Aqui ele nem tem fala. É um conjunto de regras com um retrato.
Nesses dois jogos, Zeus funciona como nos poemas mais antigos: uma força com a qual se negocia.
2. O pai a ser derrubado (2005 a 2010)
God of War mudou o tom. No primeiro jogo, Zeus ainda é aliado e entrega a Kratos um poder de raio. No segundo, trai o protagonista. No terceiro, é o chefe final. A trilogia pega o tema mais desconfortável da teogonia, a sucessão violenta de pais por filhos, e o transforma em motor de enredo.
Foi uma leitura influente. Durante anos, a imagem padrão de Zeus em jogos de ação passou a ser a do tirano paranoico. Apotheon, de 2015, é herdeiro direto: um Zeus que retira seus dons da humanidade por desprezo e precisa ser removido por um mortal.
3. O conjunto de habilidades (2013 em diante)
Enquanto isso, os jogos competitivos fizeram outra coisa com ele. Em Dota 2, Zeus é um herói de dano mágico cujo golpe definitivo atinge todos os inimigos do mapa. Em Smite, e depois em Smite 2, ele é um mago de raios encadeados. Em Fortnite, em 2024, virou traje e também chefe de mapa durante uma temporada inteira dedicada ao Olimpo.
Nesses casos não existe arco dramático. Existe um vocabulário visual que qualquer pessoa reconhece em meio segundo: barba, toga, raio. Zeus virou ícone no sentido mais literal, uma silhueta que comunica função.
4. O parente (2019 a 2020)
Hades, de 2020, trouxe o personagem de volta para a escrita. O Zeus da Supergiant é charmoso, generoso e autocentrado. Ajuda o sobrinho sem perguntar do que ele precisa. Não é vilão nem herói. Lembra aquele parente bem-sucedido que acha que todo mundo quer ser como ele. Um ano antes, Kingdom Hearts III já tinha reaproveitado a versão do desenho da Disney, o pai orgulhoso de Hércules, numa chave ainda mais doce.
A novidade dessa fase é tratar o Olimpo como família. O poder continua lá, mas o que interessa é a dinâmica de mesa de jantar.
5. O narrador sem autoridade (2020 em diante)
Immortals Fenyx Rising, lançado no mesmo ano de Hades, levou a ideia ao limite. Zeus narra a história ao lado de Prometeu e é desmentido o tempo todo. As piadas são sobre ele. Os filhos, um por um, mostram as marcas de uma criação ruim. O deus mais poderoso do panteão passa o jogo inteiro sem poder nenhum, pedindo ajuda a quem ele próprio castigou.
Hades II, em 2025, combina as duas últimas fases. Zeus mantém o charme, só que agora governa uma montanha sitiada e depende de uma bruxa que não lhe deve lealdade.
Por que a curva vai nessa direção
Há uma explicação técnica e uma cultural. A técnica: nos anos 2000, os jogos tinham pouco espaço para diálogo, e um deus funcionava melhor como regra ou como alvo. Com dublagem farta e roteiros reativos, ficou possível escrever um Zeus que se revela aos poucos, em centenas de falas curtas.
A cultural: figuras de autoridade absoluta ficaram menos interessantes como heróis e menos críveis como vilões puros. O Zeus que faz sucesso hoje é poderoso e falho, e o jogo sabe disso antes dele. No fundo, essa leitura está mais perto de Homero do que parece. Na Ilíada, os deuses também discutem, trapaceiam e fazem papel de bobos enquanto os mortais morrem lá embaixo.


